Sexta-feira, Outubro 20, 2006

Mudam-se as moscas...

O meu amigo Manuel Prazeres, enviou-me um e-mail com este texto, demonstrativo de que as coisas não mudam tanto como podem parecer à primeira vista, ou que no máximo, só mudam as moscas.

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista
e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de
vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a
energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as
moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem
onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é
bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo
misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa
morta. […]



Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro […]



Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País. […]



A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas;



Dois partidos […] sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, […] vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar…"


Guerra Junqueiro, "*Pátria*", 1896

2 comentários:

Tira dentes disse...

Não poderia estar mais de acordo, meu caro amigo

Adérito disse...

Não sei de quem é este blogue, só sei que me é enviado por um amigo de confiança, assim sendo tem a minha visita assegurada, e já agora todo o apoio ao que escreveu o Manuel Prazeres, foi com grande prazer que li o que ele enviou não é que ande adormecido, já cá ando à muitos anos, na hora do voto nunca me engano, nem nunca me enganam, só se for quando for velhinho, mas por este andar não vamos ficar só sem a Segurança Social, porque tudo irão fazer para a destruir, talvez já nem votemos... pessimista eu? podera pelo caminho que levámos...